[IM Talks] Restauração da terra: insights sobre o futuro da economia regenerativa

10 min. de leitura 15.09.2025
[IM Talks] Restauração da terra: insights sobre o futuro da economia regenerativa

A restauração da terra não é apenas uma necessidade ambiental, mas também um vetor estratégico para o crescimento de negócios sustentáveis e o fortalecimento da economia regenerativa.

Em um cenário global em que 100 milhões de hectares são degradados a cada ano (o equivalente a quatro campos de futebol por segundo), a urgência de recuperar ecossistemas já não pode ser ignorada. E no Brasil, país que concentra entre 60 e 140 milhões de hectares degradados, a oportunidade é proporcional ao desafio.

Foi com esse pano de fundo que o IM Talks – Restauração da Terra, realizado no último dia 11 pelo Impact Hub São Paulo, reuniu especialistas, investidores, empreendedores e organizações para discutir como restaurar a terra pode ir muito além da pauta ambiental, tornando-se motor de inovação, geração de empregos e prosperidade econômica.

Os palestrantes foram:

  • Paula Padrino Vilela (G20 GLI / UNCCD): Lidera programas globais de apoio a jovens ecoempreendedores e à economia da restauração da terra.
  • Catharina Vale (G20 GLI / UNCCD): Consultora de engajamento jovem no Brasil, especialista em articular diferentes atores em processos globais e locais.
  • Caio Franco (Mombak): Head de Políticas Públicas da Mombak, focado em restauração florestal na Amazônia e políticas públicas para startups inovadoras.
  • Iara Basso (P4F / Palladium): Especialista em desenvolvimento sustentável e soluções baseadas na natureza, com atuação em grandes projetos socioambientais.
  • Ana Júlia Ferreira (RADIX): Gerente de projetos e especialista em soluções de reflorestamento e Nature-based Solutions no Brasil e na Europa.

Ao longo de duas horas de discussões, surgiram insights poderosos sobre políticas públicas, modelos de negócios regenerativos, papel da bioeconomia, fortalecimento das comunidades e a necessidade de cooperação em rede.

Este conteúdo reúne os principais aprendizados do encontro e analisa como eles podem guiar empresas, governos e investidores rumo a um futuro mais sustentável.

A urgência de colocar a terra no centro da agenda

Durante a abertura, a provocação foi clara: falamos muito de clima, de biodiversidade, mas pouco da terra em si. Sem solos saudáveis, não há agricultura, biodiversidade ou combate efetivo às mudanças climáticas. Como lembrou uma das palestrantes, a terra é a base de tudo: nossa comida, nossas casas, nosso trabalho e meios de subsistência dependem dela.

Apesar disso, a degradação avança em ritmo alarmante. Mineração, urbanização descontrolada, práticas agrícolas insustentáveis e desmatamento transformam ecossistemas em desertos improdutivos.

Restaurar a terra, nesse contexto, não pode ser visto apenas como uma ação filantrópica ou responsabilidade exclusiva do setor público. Trata-se de um motor de geração de empregos, inovação e investimento.

A meta global, estabelecida pelo G20 em 2020, é ousada: restaurar 1 bilhão de hectares até 2040, o que equivale a metade das terras degradadas no planeta. O Brasil, com sua biodiversidade única e seis biomas principais, tem papel central nesse esforço.

Restauração, regeneração e reflorestamento: não são sinônimos

Um ponto importante levantado no IM Talks foi a diferença conceitual entre termos frequentemente usados como sinônimos: regeneração, reflorestamento e restauração.

Regenerar é permitir que a natureza se recomponha sozinha. Dada uma condição mínima de resiliência, o solo pode voltar a produzir vida espontaneamente.

Reflorestar significa plantar árvores em determinada área, mas não necessariamente restaurar a biodiversidade. Um plantio homogêneo de uma única espécie pode resultar em “desertos verdes”, sem fauna ou equilíbrio ecológico.

Restaurar, por sua vez, implica reconstruir ecossistemas de forma ativa, recuperando solos, fluxos hídricos, biodiversidade e condições para a vida. Como lembrou uma das falas: “quando falamos em restauração, é porque não há mais vida no local; se jogarmos uma semente, ela não brota sem intervenção humana”.

Essa diferenciação ajuda a compreender que o desafio é maior do que simplesmente plantar árvores. O objetivo é reconstruir sistemas vivos, capazes de sustentar comunidades, capturar carbono e gerar valor econômico de forma contínua.

A nova economia da restauração: negócios que cuidam da terra

Um dos principais insights do evento foi a ideia de que a restauração está se consolidando como uma indústria nascente, com modelos de negócios inovadores e escaláveis. Empresas como Genera e Mombak apresentaram suas visões sobre como transformar a restauração em motor econômico.

A Genera se posiciona como uma operadora de restauração produtiva, construindo florestas como infraestrutura verde e buscando competitividade de escala. Já a Mombak atua diretamente na Amazônia, adquirindo áreas degradadas para transformá-las em florestas biodiversas, com mais de 120 espécies nativas.

Os benefícios econômicos e sociais são claros. Estudos da Mombak mostram que, em áreas de pecuária extensiva de baixa produtividade, a substituição por projetos de restauração aumenta em 7 a 8 vezes a geração de empregos por hectare. Além disso, a restauração cria novas cadeias de valor, como viveiros de mudas, coleta de sementes e produção agroflorestal, fortalecendo economias locais.

Esse movimento é parte do que vem sendo chamado de economia da restauração, um mercado em expansão que, segundo o World Resources Institute, pode movimentar US$ 84 bilhões até 2030.

Desafios para escalar: financiamento, regulação e infraestrutura

Apesar do potencial, o setor ainda enfrenta grandes obstáculos para escalar. Entre os principais, discutidos no evento, estão:

Instrumentos financeiros inadequados

A restauração exige investimentos intensivos no início e retorno apenas após 3 a 5 anos, o que não se encaixa nos mecanismos tradicionais de crédito, voltados para ciclos curtos.

Licenciamento ambiental desproporcional

Paradoxalmente, obter licenças para restaurar áreas pode ser mais difícil do que para atividades como pecuária extensiva. Isso desestimula empreendedores e atrasa projetos.

Incentivos fiscais assimétricos

Setores como mineração contam com fortes benefícios fiscais, enquanto a restauração ainda não é contemplada em políticas de isenção equivalentes.

Gargalo de sementes e mudas nativas

A base da restauração depende de uma cadeia estruturada de viveiros. Hoje, a produção é insuficiente para atender às metas nacionais e precisa ser fortalecida com apoio público e privado.

O consenso entre os painelistas foi de que o Brasil precisa de um plano estratégico robusto, similar ao que foi feito na transição energética, para transformar a restauração em uma indústria competitiva, com incentivos claros e estabilidade regulatória.

Bioeconomia: conectar inovação, produção e biodiversidade

Outro tema de destaque foi o papel da bioeconomia como elo entre restauração, conservação da biodiversidade e desenvolvimento econômico. O Brasil concentra ativos biológicos de valor inestimável, mas ainda carece de mecanismos para transformar essa riqueza em negócios de escala.

Hoje, grande parte da produção agroalimentar mundial se concentra em apenas nove culturas principais, como trigo, milho e soja, enquanto milhares de espécies nativas permanecem subexploradas. Produtos amazônicos, por exemplo, têm potencial para conquistar mercados globais em setores como alimentação, cosméticos e farmacêuticos.

Um exemplo citado foi o de pequenas empresas que desenvolvem sorvetes a partir de frutos nativos como o cupuaçu e a castanha-do-pará. Apesar do sucesso local, esses produtos ainda não chegam aos grandes centros por falta de logística, marketing e políticas de incentivo.

A bioeconomia, nesse contexto, precisa ser fortalecida com infraestrutura, financiamento e marcos regulatórios que permitam transformar iniciativas locais em cadeias globais, sem perder a conexão com comunidades tradicionais.

Comunidades no centro da restauração

Um dos pontos mais emocionantes do evento foi a ênfase no papel das comunidades locais. A restauração só é sustentável quando gera valor direto para quem vive no território.

Na Amazônia, por exemplo, muitos municípios apresentam os piores índices de desenvolvimento humano do país. Projetos de restauração nessas áreas não apenas capturam carbono, mas também geram empregos, renda e dignidade para populações que vivem em condições de vulnerabilidade.

Exemplos como o cultivo de urucum em áreas restauradas, que se tornou fonte de renda para cooperativas locais, mostram como a floresta pode ser conservada ao mesmo tempo em que se torna produtiva. Essa abordagem reforça a ideia de conservação com pessoas, em oposição à antiga noção de preservação isolada, que excluía comunidades do processo.

Cooperação em rede: ninguém restaura sozinho

Talvez um dos maiores aprendizados do IM Talks tenha sido o reconhecimento de que a restauração só pode avançar com colaboração multissetorial. Startups, cooperativas, universidades, ONGs, empresas de grande porte, investidores e governos precisam atuar em rede.

Durante a imersão promovida pelo G20 no Brasil, foram mapeadas mais de 110 iniciativas de restauração, muitas delas conduzidas por pequenos empreendedores. A percepção é clara: há espaço para todos. O desafio não é competir, mas articular esforços para alcançar as metas coletivas, como o compromisso brasileiro de restaurar 12 milhões de hectares até 2030.

A criação de uma rede de restauração foi, inclusive, um dos convites finais do evento, reforçando que somente com cooperação será possível transformar potencial em realidade.

O papel da COP 30 e a oportunidade brasileira

Com a COP 30 marcada para 2025 em Belém, o Brasil está sob os holofotes da agenda climática global. Isso representa tanto responsabilidade quanto oportunidade.

Ser anfitrião da conferência não apenas coloca pressão para avançar em compromissos nacionais, mas também abre caminho para posicionar o país como líder de uma economia regenerativa.

Ao integrar políticas públicas, inovação empreendedora e investimentos privados, o Brasil pode mostrar ao mundo que é possível aliar desenvolvimento econômico e restauração ambiental em larga escala.

O futuro que imaginamos

O IM Talks – Restauração da Terra terminou com uma pergunta: “que futuro você imagina?”.

A resposta coletiva foi um futuro em que restaurar não é apenas reparar danos, mas criar oportunidades. Um futuro em que áreas degradadas se transformam em florestas produtivas, em que comunidades locais ganham dignidade e renda, e em que o Brasil deixa de ser apenas “o país do futuro” para assumir seu papel como protagonista global da economia regenerativa.

Restaurar a terra é, ao mesmo tempo, um ato de responsabilidade e de visão estratégica. É sobre cuidar da base da vida, mas também sobre abrir caminhos para inovação, negócios e prosperidade.

Como destacaram os participantes, não se trata mais de perguntar se devemos restaurar. A questão agora é como acelerar esse movimento e garantir que ele se torne parte estruturante de nossa economia.

O convite do evento foi claro: imaginar juntos uma terra de oportunidades, e trabalhar em rede para torná-la realidade.

Compartilhe este conteúdo:

Acesso
Rápido

Impact Hub | Inovação social | Empreendedorismo | Negócios de impacto | Coworking