Você sabia que o Brasil descarta cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, entre roupas pós-consumo e sobras da indústria? Quando olhamos especificamente para a produção industrial, estima-se que o país gere aproximadamente 170 mil toneladas de resíduos têxteis por ano, dos quais apenas cerca de 20% são reciclados.
A maior parte ainda tem como destino os aterros sanitários ou o descarte inadequado. Esses números revelam a dimensão de um desafio ambiental urgente, mas também evidenciam uma oportunidade concreta para a inovação, a economia circular e o fortalecimento de soluções territoriais.
É nesse cenário que surgem iniciativas como a LIBÉRTECCE – Economia Circular. E é justamente para conectar soluções como essa aos ecossistemas locais que foi desenvolvida a Caravana de Impacto, um movimento estratégico do Impact Hub Porto Alegre para o desenvolvimento sustentável do Rio Grande do Sul.
A história da LIBÉRTECCE começa muito antes de a empresa existir formalmente. Ela nasce dentro de uma pequena indústria familiar de confecção, com quase 30 anos de atuação no norte do Rio Grande do Sul, onde o desafio dos resíduos têxteis sempre fez parte da rotina.
Em média, cerca de 30% de tudo o que entra no processo produtivo de uma confecção se transforma em resíduo. Durante muito tempo, o único destino possível para esses materiais era o aterro sanitário, gerando custos e um impacto ambiental difícil de ignorar, especialmente no caso dos resíduos têxteis sintéticos, que podem levar mais de 400 anos para se decompor.
Essa realidade despertou uma inquietação que se transformaria em propósito. Para João Carlos de Andrades, fundador da LIBÉRTECCE, não fazia sentido aceitar o descarte como solução definitiva. Era preciso encontrar um novo caminho para esses materiais e, a partir deles, construir algo diferente.
Há mais de 15 anos, João Carlos iniciou uma jornada de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias voltadas à reciclagem de resíduos têxteis sintéticos, entendidos como polímeros plásticos com alto potencial de reaproveitamento. Esse processo envolveu parcerias com institutos de pesquisa nacionais e internacionais e evoluiu até se consolidar, há cerca de cinco anos, em uma indústria própria dedicada exclusivamente à reciclagem.
Hoje, a LIBÉRTECCE atua recebendo resíduos tanto da própria indústria de confecção que deu origem ao negócio quanto de outras empresas e indústrias geradoras. São resíduos provenientes dos setores têxtil, de vestuário, calçadista, automotivo, de máquinas agrícolas e de outros segmentos que utilizam materiais têxteis em seus processos produtivos.
A proposta é transformar o que antes era descartado em nova matéria-prima e reinserir esses materiais na cadeia produtiva, fortalecendo o conceito de economia circular na prática.
Ao longo dos últimos anos, a LIBÉRTECCE desenvolveu soluções capazes de dar novos destinos aos resíduos têxteis sintéticos. Esses materiais podem ser transformados em madeira plástica, em grânulos plásticos utilizados em processos industriais como injeção, extrusão e termoformagem, além de tecnologias de reciclagem mecânica.
A empresa também está desenvolvendo um gasificador que transforma resíduos em energia térmica e elétrica, com potencial para alimentar o próprio processo produtivo da indústria de confecção.
Em três anos de funcionamento da indústria de reciclagem, mais de 300 toneladas de resíduos têxteis já foram recicladas. O impacto ambiental dessa atuação é significativo.
Segundo estudos mencionados por João Carlos, cada quilo de resíduo de poliéster emite cerca de 9,6 quilos de dióxido de carbono equivalente ao longo do seu ciclo de vida e consome aproximadamente 89,7 litros de água. Ao reciclar esse material e devolvê-lo à cadeia produtiva, a LIBÉRTECCE contribui para reduzir emissões, preservar recursos naturais e evitar o descarte em aterros sanitários.
Foi com o objetivo de ampliar a visibilidade da tecnologia desenvolvida e criar condições para escalar a operação que a LIBÉRTECCE decidiu participar da Caravana de Impacto. Mais do que apresentar sua solução, a empresa encontrou na Caravana um espaço de escuta, troca e conexão com outros atores do ecossistema.
A Caravana de Impacto é uma iniciativa do Impact Hub Porto Alegre em parceria com o Sebrae RS que percorreu 8 regiões do Rio Grande do Sul em 2025, com o objetivo de fortalecer ecossistemas locais de inovação e negócios de impacto.
Por meio de encontros presenciais, escuta ativa, mentorias, conexões estratégicas e momentos de visibilidade para empreendedores, a Caravana conecta governo, empresas, academia e sociedade civil, revelando soluções que já atuam nos territórios e criando pontes para que esses negócios ganhem escala, reconhecimento e novas oportunidades.
Para João Carlos, a experiência ampliou a visão de mercado da LIBÉRTECCE e abriu portas para novas conexões com potenciais clientes, parceiros, instituições acadêmicas e organizações que atuam com inovação e sustentabilidade.
O contato com outras iniciativas de impacto fortaleceu o reconhecimento da empresa como um negócio de impacto, evidenciando a relevância econômica, social e ambiental da sua atuação para o Rio Grande do Sul e para o Brasil.
Para Daniela Giffoni, idealizadora da Caravana de Impacto e diretora no Impact Hub Porto Alegre, a iniciativa se mostrou um ambiente onde diferentes realidades se encontram, se reconhecem e passam a construir juntas caminhos possíveis para a inovação sustentável nos territórios.
“Ao participar da Caravana de Impacto, muitos empreendedores descobriram que já faziam parte de um ecossistema de inovação. A LIBÉRTECCE é um exemplo de quem já gerava impacto, mas ainda não se via como startup.”
A trajetória da LIBÉRTECCE reforça que a economia circular não se constrói de forma isolada. Ela depende da articulação entre empresas, indústrias, poder público, academia e instituições de apoio.
A Caravana de Impacto se soma a esse contexto ao fortalecer conexões, promover visibilidade e integrar diferentes atores em torno de um propósito comum. É nesse ambiente colaborativo que soluções inovadoras encontram espaço para amadurecer, ganhar escala e gerar impacto real nos territórios.
O desafio agora é crescer. A capacidade atual de reciclagem da LIBÉRTECCE está entre 10 e 15 toneladas por mês e pode ser muito maior dada a urgência do problema e o potencial de transformação.
Para avançar, a empresa busca parceiros investidores que possam contribuir não apenas com recursos financeiros, mas também com visão estratégica, conexões e troca de conhecimento.
Escalar a operação significa ampliar o impacto ambiental positivo, fortalecer a economia circular e contribuir para um modelo de desenvolvimento mais sustentável.
Para João Carlos, empreender em impacto é uma jornada longa e cheia de desafios, que exige resiliência, ajustes constantes e mudanças de comportamento. Ao mesmo tempo, é uma trajetória profundamente motivadora, especialmente quando se percebe que o trabalho realizado contribui, ainda que em pequena escala, para enfrentar desafios ambientais e sociais cada vez mais urgentes.
A LIBÉRTECCE segue avançando conectada a um ecossistema que entende que inovação, economia circular e desenvolvimento sustentável são construções coletivas. É esse movimento que a Caravana de Impacto ajuda a fortalecer ao conectar territórios, ampliar redes e criar condições para que o impacto deixe de ser isolado e passe a ganhar escala no Rio Grande do Sul e em todo o país.
A história da LIBÉRTECCE é uma entre muitas que mostram como o impacto ganha força quando os territórios se conectam. Para conhecer os aprendizados, os números e as iniciativas que fizeram parte dessa jornada pelo Rio Grande do Sul, baixe o relatório da Caravana de Impacto e descubra como o ecossistema está se mobilizando para transformar desafios em soluções sustentáveis.