Por que falar de empreendedorismo feminino periférico sob a lente da ciência comportamental? No Brasil, mulheres periféricas, especialmente mulheres negras, representam um dos grupos mais ativos no empreendedorismo e, ao mesmo tempo, um dos mais invisibilizados pelas políticas públicas. Para enfrentar essa desigualdade estrutural, a Comunidade de Ciências Comportamentais, iniciativa do Sebrae Nacional, do MGI e do Impact Hub, promoveu um workshop dedicado ao tema: Comportamento, Políticas Públicas e Existência Empreendedora.
O encontro convidou a sociedade, representada por pessoas de diferentes regiões do país, a refletir, compartilhar vivências reais e coconstruir caminhos para políticas públicas mais eficazes, simples e conectadas ao cotidiano de quem empreende nas bordas.
A proposta da Comunidade de Ciências Comportamentais é clara: usar evidências sobre comportamento humano para melhorar políticas públicas e práticas relacionadas ao empreendedorismo. No workshop, esse propósito ganhou vida por meio de uma construção horizontal, colaborativa e profundamente conectada à diversidade de experiências das participantes.
A atividade teve como convidada especial Daise Natividade, pesquisadora e diretora da Rede Brasil Afroempreendedor, que conduziu duas reflexões centrais.
Daise resgatou o percurso histórico das mulheres negras empreendedoras no Brasil e destacou que muitos dos desafios atuais remontam ao século XIX, quando a existência empreendedora começou no Brasil, por parte das quituteiras (mulheres negras escravizadas que vendiam os produtos de seus “senhores” ou alforriadas que praticavam sua autonomia econômica).
Mesmo após avanços institucionais no empreendedorismo feminino, o recorte periférico ainda reflete a informalidade, a falta de reconhecimento e a ausência de políticas públicas, o que segue afetando profundamente quem empreende para existir.
Essa análise histórica revela que políticas públicas eficazes precisam considerar contextos culturais, barreiras estruturais e tecnologias sociais construídas ao longo de gerações.
Na segunda parte do workshop, Daise provocou o grupo a refletir sobre o imaginário dominante em torno do “empreendedor de sucesso”. Segundo ela, essa narrativa é frequentemente distante da realidade brasileira, que é marcada por criatividade, ancestralidade e invenções diárias necessárias para a sobrevivência.
Como sintetizou a especialista:
“Não dá para pensar em empreendedorismo no Brasil sem olhar para o cotidiano criativo de quem empreende para existir.”
Após o diálogo, os participantes produziram posicionamento coletivo que sintetiza as percepções sobre barreiras enfrentadas no empreendedorismo feminino periférico. Entre os principais pontos discutidos estão:
Fragmentação das políticas públicas
Ações e programas chegam de forma dispersa e pouco conectada à realidade dos territórios.
Baixa visibilidade do trabalho de mulheres periféricas
Profissionais como artesãs, ribeirinhas, pescadoras e agricultoras ainda têm pouco reconhecimento institucional, apesar da relevância econômica e cultural de seus saberes.
Acúmulo de responsabilidades
A sobrecarga de cuidado, aliada à urgência de gerar renda, dificulta o acesso à formação e ao desenvolvimento dos negócios.
Autorreconhecimento e autoestima
Muitas mulheres não se reconhecem como empreendedoras, mesmo liderando negócios que sustentam famílias e comunidades, resultado de uma sociedade que historicamente invisibiliza seus papéis econômicos.
Ao se posicionar como uma casa de construção de conhecimento empreendedor, o Sebrae reforça seu compromisso em desenvolver soluções com o poder público que considerem diferentes pontos de partida e desafios reais das empreendedoras brasileiras.
O workshop gerou insumos valiosos para aprimorar programas e políticas, ampliando a capacidade institucional de atuar com mais precisão, diversidade e impacto social.
O encontro evidencia como a ciência comportamental pode transformar políticas e serviços públicos, aproximando-os das realidades concretas de quem empreende.
A Comunidade de Ciências Comportamentais segue como um espaço de experimentação, diálogo e produção de conhecimento coletivo e reforça que inovar em políticas públicas é, antes de tudo, ouvir quem vive na prática os desafios do empreendedorismo no Brasil.