Ambientes de Inovação e Comunidades

Por que projetos de inovação pública morrem na troca de gestão (e o que evita isso)

Por que projetos de inovação pública morrem na troca de gestão (e o que evita isso)

Por que projetos de inovação pública são interrompidos após mudanças de governo? Entenda como governança, equipes e indicadores ajudam a preservar resultados.

Quase um em cada três projetos de inovação pública não é mantido após uma troca de gestão. O índice de descontinuidade chega a 28,3% e pode alcançar 30% em políticas macroestruturais mais sujeitas a mudanças ideológicas, segundo estudos do Ipea e da Enap citados no Panorama 2025 do Impact Hub.

A mudança de governo, de secretário ou de dirigente costuma ser apontada como a causa do encerramento dessas iniciativas. Mas a troca de gestão apenas expõe fragilidades anteriores. Muitos projetos dependem de uma liderança específica, de uma equipe externa ou de conhecimentos que nunca foram incorporados à instituição.

Quando essas pessoas saem, os processos deixam de funcionar. Decisões importantes não estão registradas, servidores não dominam a metodologia e os indicadores param de ser acompanhados. A nova equipe recebe entregas, relatórios e plataformas, mas não encontra condições para dar continuidade ao trabalho.

Projetos de inovação pública morrem quando funcionam como experiências temporárias, e não como capacidades permanentes do Estado. Para reduzir esse risco, três elementos precisam ser planejados desde o início: governança documentada, equipes formadas e indicadores ativos.

Por que projetos de inovação pública são interrompidos?

Nos últimos anos, a inovação pública ganhou espaço nos governos brasileiros. Órgãos municipais, estaduais e federais passaram a realizar desafios de inovação aberta, contratar tecnologias, criar laboratórios, testar novas metodologias e formar redes de servidores.

O avanço, porém, produziu um novo problema. O setor público aprendeu a começar projetos, mas ainda encontra dificuldades para integrá-los ao funcionamento cotidiano das instituições. Pilotos são concluídos, eventos são realizados e plataformas são lançadas, mas parte das iniciativas não sobrevive ao fim do contrato ou do mandato.

O Panorama 2025 do Impact Hub definiu esse desafio como o “segundo passo” da inovação pública. O primeiro foi colocar o tema na agenda. O segundo é garantir continuidade, escala e evidências de que houve mudança no problema público enfrentado.

Um projeto pode cumprir seu cronograma e ainda assim gerar pouco efeito duradouro. Entregar uma tecnologia ou concluir um piloto não significa que o serviço público melhorou. Para avaliar o resultado, é preciso verificar se houve redução de custos, diminuição do tempo de resposta, ampliação do acesso ou melhoria na qualidade do atendimento.

“Há risco em confundir entrega com transformação. A administração celebra o piloto, o protótipo ou a plataforma digital construída, mas não verifica se houve mudança concreta no problema público que justificou a contratação.”

— Vitor Dias, Especialista em Inovação Aberta no Governo

Essa diferença entre concluir uma entrega e alterar um problema público ajuda a explicar por que tantos pilotos não avançam para uma implementação permanente.

Quando o piloto não vira política pública

O Pitch Gov SP ajuda a entender a distância entre testar uma solução e incorporá-la ao Estado. Realizado pelo Governo de São Paulo entre 2015 e 2019, o programa conectou startups a desafios públicos e conseguiu testar novas tecnologias.

Na etapa de expansão, porém, as soluções encontraram obstáculos na antiga Lei de Licitações, que não previa adequadamente a contratação de tecnologias com risco inerente. O programa demonstrou que as soluções poderiam funcionar, mas não conseguiu completar a passagem entre experimento e implementação em maior escala.

Esse tipo de dificuldade não está restrito às contratações. Um piloto também pode terminar porque não existe orçamento para a continuidade, porque a solução não se integra aos sistemas do órgão ou porque as áreas jurídica, técnica e operacional não participaram do projeto.

A inovação permanece isolada. Uma área especializada conduz o teste, enquanto o restante da organização continua trabalhando da mesma maneira. Quando o projeto acaba, o aprendizado não altera os processos institucionais.

Para evitar isso, o desenho precisa considerar desde o início o que acontecerá depois do piloto. Quem será responsável pela solução? Qual área manterá a operação? Que recursos serão necessários? Como a contratação poderá avançar? Que resultado justificará a continuidade?

Como a dependência de pessoas aumenta o risco

Projetos públicos frequentemente dependem de servidores ou gestores que acumulam conhecimento sobre procedimentos, relações institucionais e decisões anteriores. Essas pessoas sabem quais áreas precisam ser acionadas, quais riscos já foram avaliados e como contornar obstáculos administrativos.

Quando esse conhecimento não está registrado, ele deixa a instituição junto com a pessoa. A troca de equipe produz uma espécie de amnésia institucional.

A nova gestão precisa reconstruir o histórico, refazer diagnósticos e descobrir por que certas escolhas foram feitas. Em alguns casos, prefere abandonar o projeto porque não consegue avaliar seu funcionamento ou seus resultados.

A dependência também aparece quando todo o domínio metodológico está concentrado na consultoria ou na organização contratada. O projeto funciona enquanto existe acompanhamento externo, mas perde consistência quando o contrato termina.

A continuidade exige que o conhecimento circule durante a execução. Servidores precisam participar da formulação, dos testes e das decisões, e não apenas receber a entrega final.

Governança documentada preserva a memória institucional

Governança documentada é o registro dos papéis, processos, fluxos de decisão, responsabilidades e rotinas necessários para operar um projeto. Ela permite que outra equipe compreenda como o trabalho foi organizado e continue a execução sem depender apenas de explicações informais.

Documentar não significa produzir relatórios extensos que serão arquivados. O registro precisa responder a perguntas práticas: quem decide, quem executa, quais áreas devem ser consultadas, como as prioridades são definidas e quais critérios orientam mudanças de rota.

No projeto de fortalecimento da Unidade de Inovação do Sebrae Nacional, o Impact Hub apoiou a estruturação de governança, rotinas, planejamento e acompanhamento por meio de uma ferramenta de gestão. Ao longo de 18 meses, o trabalho acompanhou 29 projetos de inovação ativos e registrou 3.543 entregas, com alcance em mais de 2 mil territórios.

O valor dessa estrutura não está apenas na quantidade de entregas. Os registros permitem visualizar responsabilidades, identificar atrasos, acompanhar decisões e manter uma referência comum entre equipes que operam em diferentes localidades.

Quando a liderança muda, a nova equipe encontra um sistema de trabalho compreensível. Pode rever prioridades, mas não precisa reconstruir todos os processos do zero.

Equipes formadas reduzem a dependência externa

Transferir capacidade não é apenas entregar manuais, apresentações ou gravações. A equipe precisa ser capaz de aplicar a metodologia, adaptar ferramentas e tomar decisões depois que o apoio externo termina.

Essa formação ocorre com prática, acompanhamento e participação em problemas reais. Servidores aprendem quando conduzem diagnósticos, formulam desafios, avaliam soluções e discutem os critérios utilizados em cada etapa.

No trabalho com o Sebrae São Paulo, foram estruturados e testados dois produtos formativos para servidores municipais sobre gestão pública e compras públicas de inovação. O projeto também produziu trilhas gravadas e realizou o repasse da metodologia para formar aplicadores capazes de reproduzir o conteúdo com maior autonomia.

No ALI Produtividade, a estruturação de células de acompanhamento ajudou a padronizar a metodologia CONECTAR. O modelo orientou 2.633 agentes que atuaram com 18.291 empresas ativas.

Outra experiência ocorreu em sete municípios do Rio Grande do Sul. Servidores participaram de diagnósticos, workshops e hackathons sobre cultura analítica, inovação aberta, design thinking, metodologias ágeis e transformação digital.

Nesses casos, o resultado não se limita à capacitação realizada. A instituição passa a contar com pessoas capazes de conduzir novos ciclos de inovação, avaliar propostas e adaptar os métodos a diferentes desafios públicos.

Indicadores ativos comprovam resultados

Um projeto de inovação pública precisa medir atividades, mas não pode se limitar a elas. Número de reuniões, participantes, oficinas ou soluções inscritas ajuda a acompanhar a execução. Esses dados não mostram, sozinhos, se o problema público mudou.

Indicadores ativos são métricas que continuam sendo acompanhadas depois do piloto. Eles permitem verificar se os resultados foram mantidos e fornecem evidências para decidir pela continuidade, correção ou interrupção do projeto.

A escolha dos indicadores depende do objetivo. Uma solução de atendimento pode medir tempo de espera, resolução de solicitações e satisfação dos usuários. Um projeto de compras públicas pode acompanhar desafios contratados, testes concluídos e soluções incorporadas. Uma iniciativa de desenvolvimento econômico pode medir faturamento, produtividade ou acesso a mercados.

No projeto com o Sebrae Nacional, ciclos mensais de priorização, acompanhamento e ajuste de rota criaram uma rotina contínua de medição. As 3.543 entregas registradas formaram uma base para acompanhar a evolução dos 29 projetos e orientar decisões durante a execução.

No programa de compras públicas de inovação com o Sebrae São Paulo, a elaboração de estudos técnicos preliminares, critérios, matrizes de risco e editais criou condições para que os órgãos avançassem nas contratações com maior segurança técnica e jurídica.

Medir, nesse contexto, não é apenas prestar contas ao final. É manter informações que permitam ao órgão saber o que está funcionando e por quê.

Como preparar um projeto para a próxima gestão

A continuidade precisa ser tratada como parte do desenho inicial. Antes de iniciar o projeto, o órgão deve definir qual capacidade deverá permanecer depois do encerramento do contrato.

Essa pergunta altera a forma de execução. Em vez de concentrar as decisões na equipe externa, o projeto inclui servidores na formulação. Em vez de registrar apenas entregas, documenta critérios, responsabilidades e aprendizados. Em vez de medir somente durante o piloto, estabelece indicadores que poderão continuar sendo acompanhados.

Também é necessário envolver as áreas que sustentam a operação. Jurídico, orçamento, tecnologia, compras e equipes responsáveis pelo serviço precisam participar antes que a solução esteja pronta. Caso contrário, os obstáculos surgem apenas quando o projeto tenta avançar.

A seguir estão alguns dos principais riscos e as medidas que reduzem a possibilidade de descontinuidade:

 

Risco: Conhecimento concentrado em uma pessoa

Medida preventiva: Processos e decisões documentados

 

Risco: Dependência permanente da consultoria

Medida preventiva: Servidores formados durante a execução

 

Risco: Resultados medidos apenas no encerramento

Medida preventiva: Indicadores acompanhados após o piloto

 

Risco: Projeto isolado da rotina do órgão

Medida preventiva: Participação das áreas responsáveis pela operação

 

Risco: Falta de justificativa para continuidade

Medida preventiva: Evidências sobre resultados, custos e qualidade do serviço

 

Risco: Dificuldade de contratação

Medida preventiva: Preparação jurídica, técnica e orçamentária desde o início

 

Nenhuma dessas medidas impede que uma nova gestão altere prioridades. A diferença é que a decisão poderá ser tomada com acesso ao histórico, aos resultados e às condições de operação do projeto.

Perguntas sobre continuidade da inovação pública

O que causa a descontinuidade de projetos públicos?

As causas incluem mudanças de prioridade, falta de orçamento, processos não documentados, saída de pessoas-chave, ausência de capacidade interna, dificuldades de contratação e indicadores insuficientes para comprovar resultados.

Como garantir a continuidade de um projeto de inovação pública?

O projeto deve registrar decisões, definir responsabilidades, formar servidores, envolver as áreas que executarão a solução e manter indicadores depois do piloto.

Qual é a diferença entre piloto e política pública?

O piloto testa uma solução em escala limitada. Para se tornar parte da política pública, a solução precisa de base jurídica, orçamento, responsáveis definidos, integração com processos existentes e capacidade de operação contínua.

A documentação garante que o projeto continue?

Não. A nova gestão pode mudar prioridades. A documentação reduz a perda de conhecimento e oferece elementos para que a decisão sobre continuidade seja baseada em processos e resultados.

Inovação pública precisa permanecer depois do projeto

O teste mais difícil de um projeto de inovação pública acontece quando o contrato termina, a liderança muda e outra equipe assume a operação.

Quando processos, conhecimentos e indicadores desaparecem junto com a equipe que iniciou o trabalho, o projeto não se tornou capacidade institucional. Produziu uma entrega temporária.

Quando a governança está documentada, os servidores dominam os métodos e os resultados continuam sendo medidos, a instituição pode adaptar e manter o que funcionou.

É esse o legado de um projeto de inovação bem sucedido: permitir que o Estado continue aprendendo, tomando decisões e entregando resultados mesmo depois da troca de gestão.

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